Viagem Literária: José Tolentino Mendonça e Valter Hugo Mãe

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Dom Tolentino fala da Biblioteca Vaticana


(E)ternamente livros


7 tipos diferentes de leitura

Leia aqui matéria do Universia de 03/01/2019.


Saber viver (em 2019)

É preciso saber viver!

Viver é fazer parte do Universo, um lugar onde “Tudo é determinado por forças além de nossa vontade. Isto é verdade para um inseto ou uma estrela. Seres humanos, vegetais, grãos de poeira, todos dançam segundo uma melodia misteriosa, entoada à distância por um flautista invisível” (Albert Einstein). Aqui, “Você nasce sem pedir e morre sem querer. Aproveite o intervalo” (autor desconhecido). Como aproveitar?

Carpe diem, quam minimum credula postero” [Aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã] (Horácio Flaco). Sem esquecer, todavia, que “A vida é um por enquanto no que há de vir” (Mia Couto). Lide  bem com seu tempo. Quem manda nele não é o relógio, mas o seu coração: “O tempo é muito lento para os que esperam. Muito rápido para os que têm medo. Muito longo para os que lamentam. Muito curto para os que festejam. Mas para os que amam, o tempo é eterno” (Henry Van Dyke).

Não marque bobeira, viu!: “Festina lente” [Apressa-te devagar] (Imperador Augusto), porque “Viver não é esperar a tempestade passar, mas aprender a dançar na chuva” (Vivien Greene, mas não há certeza).

Nada de invejinhas, hein!:

“Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias” (Ricardo Reis).

Também não se acovarde, porque “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem” (Guimarães Rosa). Se preciso, “Fracasse. Tente outra vez. Fracasse melhor” (Samuel Beckett). Nada de medo. “Quem vive no medo precisa de um mundo pequeno, um mundo que pode controlar” (Mia Couto), mundinho onde fica difícil respirar.

“O pessimista vê dificuldade em cada oportunidade. O otimista vê oportunidade em cada dificuldade” (Winston Churchill). Mas não seja pessimista, nem otimista. “O otimista é um tolo. O pessimista é um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso” (Ariano Suassuna).

Faça, tente, experimente, vivencie muitas coisas (sem acelerar demais). Porém, “Tudo que não puder contar como fez, não faça” (Immanuel Kant).

Não se engane sobre uma coisas essencial: “O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança ” (Gabriel García Márquez). Não se deixe levar pelo que dizem falsos casais, já que “Um casal pode declarar estar unido por amor, mas nós, barqueiros, podemos ver em vez disso ressentimento, raiva e até ódio. Ou um enorme vazio. Às vezes, só o medo da solidão e mais nada” (Kazuo Ishiguro).

Evite a imbecilidade e a idiotice: “Os loucos às vezes se curam. Os imbecis nunca” (Oscar Wilde); “Quando você morre, você não sabe que está morto. Quem  sofre são os outros. É a mesma coisa quando você é idiota” (Ricky Gervais).

No fim das contas, não há muita alternativa. “La vida no es la fiesta que habíamos imaginado, pero ya que estamos aquí, bailemos” (Fernando Aramburu). Dancemos, embriagados ao máximo! O poeta assim aconselha:

“É preciso te embriagares sem trégua.

Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude?

A teu gosto, mas embriaga-te” (Charles Baudelaire)

E sonhe, sonhe muito, “Sonhe como se fosse viver para sempre; viva como se fosse morrer amanhã (James Dean), sem manias de grandeza: “Que eu e eu, que isto multiplicado por aquilo, noves fora eu. (…) … a lua morre e é  grande, enquanto as estrelas, ainda que pequenitas, ficam a brilhar” (Mia Couto).

Se  ainda assim, quiser ser grande, tudo bem, afinco:

“Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui,

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

no mínimo que fazes” (Ricardo Reis).

Mas não corra  atrás de elogio ou aceitação. “Muito  elogio é como botar água demais na flor. Ela apodrece” (Clarice Lispector). “Você deve saber como aceitar a rejeição e como rejeitar a aceitação” (Ray Bradbury).

Tampouco queira demais: “O sábio é aquele que não se aflige com o que lhe falta e se alegra com o que possui” (Demócrito). Não queira, por exemplo, “simplesmente ser feliz”. Veja: “Se queres compreender a palavra ´felicidade´, indispensável se torna entendê-la como recompensa e não como fim” (Antoine de Saint-Exupéry). Nem a paz, queira, assim, só por querer: “Somos fecundos apenas ao preço de sermos ricos em antagonismos: permanecemos jovens apenas sob a condição de que  a alma não relaxe, não busque a paz” (Friedrich Nietzsche).

Por fim, leia muito (*), tanto quanto puder, com gosto. E preencha as lacunas aqui existentes sobre o bem viver.

(*) Veja aqui frases selecionadas sobre o livro e a leitura.

[Original: 17/06/2018]


Mais livros, menos burros

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A diferença fundamental entre ignorância e burrice é que a ignorância é um estado, uma condição passageira — nascemos ignorantes e vamos, aos poucos, derrotando a falta ou insuficiência de entendimento que temos dos seres, das coisas e das relações. Em alguns casos isso acontece mais aceleradamente, em outros, menos, conforme as características de cada um e dependendo das circunstâncias. A burrice, não: ela é uma escolha — é ateimosia em achar que se sabe quando, de fato, se ignora aquilo que se pensa conhecer.

O burro é um ser empacado, que não sai do lugar, quando muito gira e retorna ao ponto de partida, sem progredir.

O burro não tem vergonha de ser burro; o ignorante tem. Por isso o burro é exuberante, falante, prepotente, apresenta sério déficit de civilidade, até como forma de se auto-proteger. O ignorante, quando não procura passar despercebido, esforça-se para aprender com os demais; portanto, é sociável e afável.

O livro é uma espécie de facão afiado, que corta a corda que prende o burro à ignorância; as redes sociais estão se revelando, pelo contrário, sua condição de ampliadoras da ilusão de conhecimento que fortalece a prepotência do burro.


Leitura e política

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Imagem: https://veja.abril.com.br/blog/meus-livros/goncalo-m-tavares-e-a-gloria-do-portugues/

“…ler ajuda politicamente: quem lê boa ficção detecta de imediato a péssima ficção que muito do discurso político utiliza” (Gonçalo M. Tavares, em entrevista n´O livro das palavras, São Paulo: Leya, 2013, . 113).