Desasossego

Quando jovens, não sabemos bem quem somos; e o que viremos a ser é apenas um rascunho. E isso nos desasossega.

Quando velhos, não sabemos bem porque nos tornamos o que somos; e o que viremos a ser é um desenho claro e aterrador. E isso nos desasossega.

Enquanto vivos, o desasossego é nosso companheiro. Que fazer, senão abraçá-lo, para que não nos abrace ele; e desfrutar suas ausências intermitentes?

 

Babacas?

Pense bem: se não formos capazes de fazer um mundo melhor, partindo das inéditas e fantásticas condições acumuladas pela Humanidade até aqui, é porque somos irremediáveis babacas, mesmo.

3 regras

“Existem três regras para escrever ficção. Infelizmente ninguém sabe quais são elas.” (Somerset Maugham)

Cachorro e cavalo; galinha e vaca.

Num dia da semana passada, eu trafegava na Washinton Luís e, à altura de São Carlos, um cara de moto entrou repentinamente na pista, saindo de uma rua adjacente, devagar. Ao lado dele, um cachorro, acompanhando-o na mesma velocidade, refestelado, rabo bobocamente abanando de alegria. Quando o cara acelerou a moto, para entrar no ritmo do trânsito, o cachorro começou a correr, tentando alcançá-lo. Aos poucos, foi indo para o meio da pista, atingindo o máximo de velocidade que podia, dando espaçados e estridentes latidos, mas sem lograr alcançar o possível dono. Vi, pelo retrovisor, o atropelamento. Fiquei tão chocado que tive que parar, já distante do local.

Hoje, vi uma galinha ser atropelada, na mesma rodovia, quase à mesma altura. Voou pena para todo lado; e não sobrou nada, senão uma massa sanguinolenta no piso. Não fiquei chocado.

Será que eu sentiria diante do atropelamento de um cavalo o que senti pelo do cachorro;  e diante do atropelamento de uma vaca, o que eu senti pelo da galinha?

Fico me perguntando o que acontece com a nossa mente, frente a tais circunstâncias. Creio que o fato de se saber que as galinhas são destinadas, de antemão, ao sacrifício, faz com que não nos compadeçamos delas quando morrem atropeladas; ao contrário do que sentimos em relação aos cachorros, tidos como companheiros de nossas vidas.

Aterroriza-me imaginar que nossa mente pode desenvolver semelhante sistema de avaliação também em relação às pessoas, tomando por natural que algumas se destinem ao sacrifício, enquanto que outras não e, portanto, diante dos infortúnios de umas e de outras, nos sintamos, respectivamente, como diante do atropelamento de uma galinha e de um cachorro.

Pés e cabeça

Enquanto o mundo caía sobre sua cabeça, o sujeito persistia esperando que ele caísse aos seus pés.

Punição sem fim

Se todo erro deve ser punido na proporção de sua gravidade, a pena imposta a Deus pela criação do ser humano deveria ser a reclusão eterna? Ou Ele deve ser perdoado por não ter que responder pelos atos posteriores à Criação? Ou, ainda, deve Ele ser responsabilizado apenas pela criação do Universo e não pelo que no seu interior veio a “brotar”? Ou, ao invés disso tudo, Ele deve ser deixado em paz? Ou: “Olha só quem está querendo punir! Rsrsrsrsrs”

Moulin Rouge

Meu nome é A. H. Eu estava lá, vendo tudo acontecer, paralisado e amordaçado pelo desejo de que as engrenagens que produziam os acontecimentos fossem outras.

O clima era de festa, mas percebia-se nos semblantes e trejeitos que se tratava de simulação e, às vezes, de dissimulação. Cada um que chegava, já açoitado pelo álcool ou, em alguns casos, por drogas mais potentes, o fazia como se estivesse vivendo um momento memorável. Uma névoa inebriante e um murmurinho crescente fabricavam um mundo suficientemente à parte para se destacar do resto da cidade. Mundo de cabaré.

Elas chegavam em grupos ou duplas. Chegar sozinha até era possível, mas beirava o temerário. Rigorosamente elegantes como as damas de lupanar – em trajes e maquiagens – se punham a  lançar olhares e a dar pequenos escândalos, para ensejar as transações. Disputa velada.

Eles chegavam também aos bandos, mas eram mais numerosas as performances individuais. Proxenetas, gigolôs e bons vivants – trajes a rigor, rigorosamente copiados do guarda-roupas de uma memória coletiva forjada há pelo menos sessenta, setenta anos.

Contraditoriamente, havia casais, mas ali agiam separados – elas estavam lá para serem compradas, e eles, para escolher a “mercadoria”. O jogo era construir uma memória, fosse a de um tempo que sabidamente não retorna – por sua singularidade e fugacidade -, fosse de um acontecimento cuja evocação carrega o potencial de liberar fantasias a qualquer momento, no futuro. No cerne do jogo, a quebra das regras externas a ele, para valerem as dele, envolventes e calculadamente arriscadas.

Não que as regras fossem tão rígidas, lá fora, como há sessenta ou setenta anos, tempo em que ambientes, cenas e pessoas como aquelas, ali simuladas, eram realmente parte de um quase-submundo, portas fechadas, protegidas para não serem arrombadas; jovens em busca de emoções mais fortes do que sonhar com o tornozelo desnudo da recatada e branquíssima moça casadoira; e velhos à cata de mais do que uma vida conjugal eivada de hipocrisia. As mesmas inquietações e perturbações, outras circunstâncias para vivê-las. Outro mundo, o mesmo jogo.

Jogo inocente, em tese. Mas por que haveria de envolver culpas? E por que não? A dúvida emerge para alguns, dias depois: jogadores que descobriram ali o amor do momento, ou que o perderam, por imperícia nos lances.

Deixa pra lá! “Laissez faire laissez passer!” Apenas cenas de um filme a ser lembrado. São personagens, nada mais. Tanto que os flashs não param de piscar; os celulares acesos estragam o escurinho e as fotos circulam nas redes sociais. Tudo às claras e muito lindo.

Um filme sem roteirista, sem diretor, sem continuísta, sem figurinista, sem cenógrafo, sem fotógrafo. Cada um apanhou da memória coletiva e das fantasias pessoais tudo o que se fazia necessário para o desempenho do seu papel.

Que belo filme! Pena que acabou, e a vida retornou ao seu curso e ao seu ritmo avassaladores, com roteirista, com diretor, com continuísta, com figurinista, com cenógrafo, sem fotógrafo, sem coreógrafo. E o jogo é duro, nada lúdico, sem espaço para ingenuidades. Sessenta ou setenta anos depois (ou seriam três ou quatro hora depois?), a cidade mudou e, com ela, todos e cada um.

E eu estou aqui, vendo tudo acontecer, paralisado e amordaçado pelo desejo de que as perspectivas e expectativas se tornem outras, com aventureiro sabor de Moulin Rouge, mas sem a carga negativa de uma fuga ao enfrentamento dos próprios fantasmas, que assombram sem parar, num tempo (este tempo de sempre) em que já não se pode voltar ao passado e, por outro lado, as portas para o futuro ainda não estão abertas. Tempo de emparedamento no presente. Nostalgia contra tédio.

Palavras e palavras

A arte da prosa literária está em “fazer” a vida, “trazer” a vida, por meio das palavras, sem que o leitor se dê conta de que se trata, simplesmente, de palavras. Por outro lado, a arte da poesia está em dar vida exatamente à palavra, destacando-lhe a cor, o sabor, o mistério e o encanto – por recurso o som e o ritmo, palavra dita ou imaginada como dita. Disto eu sei, mas como fazer?

Aquários

O velho, bom e quase-esquerdista (para os padrões de hoje), J. M. Keynes demonstrou que a especulação financeira é funcional para o capitalismo: não fosse ela, a divergência entre os interesses altistas (touros, que vislumbram ganhos) e baixistas (ursos, que vislumbram perdas) não se resolveria, criando pessimismos exagerados ou otimismos descontrolados, incompatíveis com a formação de expectativas mantenedoras das relações de troca.

Segundo este brilhante economista (que mostrou a seus mestres que eles estavam errados), a especulação financeira funciona como pequenas bolhas de oxigênio na água do aquário. Mas quando ela se expande demais, destrói o aquário (a bolha expulsa a água).

Da mesma maneira, a existência de políticos compráveis (que dão seu voto a troco de favores pessoais, para si ou seus próximos ou apoiadores) é uma necessidade para viabilizar propostas e projetos, em qualquer realidade política, infelizmente, queira-se ou não (esta é a merda a que se referia Sartre). Estes políticos (do “baixo clero”) servem para “oxigenar” o ambiente de negociação conflitiva típico da política. Mas quando eles são muito numerosos, quebram o aquário da política, do mesmo modo que a especulação quebra o da economia.

Leitura por prazer

“Como é conveniente e agradável o mundo dos livros! – se não se atribuir a ele as obrigações de um estudante, nem considerá-lo um sedativo para a preguiça, mas entrar nele com o entusiasmo de um aventureiro!” (D. Grayson)