
Meu nome é A. H. Eu estava lá, vendo tudo acontecer, paralisado e amordaçado pelo desejo de que as engrenagens que produziam os acontecimentos fossem outras.
O clima era de festa, mas percebia-se nos semblantes e trejeitos que se tratava de simulação e, às vezes, de dissimulação. Cada um que chegava, já açoitado pelo álcool ou, em alguns casos, por drogas mais potentes, o fazia como se estivesse vivendo um momento memorável. Uma névoa inebriante e um murmurinho crescente fabricavam um mundo suficientemente à parte para se destacar do resto da cidade. Mundo de cabaré.
Elas chegavam em grupos ou duplas. Chegar sozinha até era possível, mas beirava o temerário. Rigorosamente elegantes como as damas de lupanar – em trajes e maquiagens – se punham a lançar olhares e a dar pequenos escândalos, para ensejar as transações. Disputa velada.
Eles chegavam também aos bandos, mas eram mais numerosas as performances individuais. Proxenetas, gigolôs e bons vivants – trajes a rigor, rigorosamente copiados do guarda-roupas de uma memória coletiva forjada há pelo menos sessenta, setenta anos.
Contraditoriamente, havia casais, mas ali agiam separados – elas estavam lá para serem compradas, e eles, para escolher a “mercadoria”. O jogo era construir uma memória, fosse a de um tempo que sabidamente não retorna – por sua singularidade e fugacidade -, fosse de um acontecimento cuja evocação carrega o potencial de liberar fantasias a qualquer momento, no futuro. No cerne do jogo, a quebra das regras externas a ele, para valerem as dele, envolventes e calculadamente arriscadas.
Não que as regras fossem tão rígidas, lá fora, como há sessenta ou setenta anos, tempo em que ambientes, cenas e pessoas como aquelas, ali simuladas, eram realmente parte de um quase-submundo, portas fechadas, protegidas para não serem arrombadas; jovens em busca de emoções mais fortes do que sonhar com o tornozelo desnudo da recatada e branquíssima moça casadoira; e velhos à cata de mais do que uma vida conjugal eivada de hipocrisia. As mesmas inquietações e perturbações, outras circunstâncias para vivê-las. Outro mundo, o mesmo jogo.
Jogo inocente, em tese. Mas por que haveria de envolver culpas? E por que não? A dúvida emerge para alguns, dias depois: jogadores que descobriram ali o amor do momento, ou que o perderam, por imperícia nos lances.
Deixa pra lá! “Laissez faire laissez passer!” Apenas cenas de um filme a ser lembrado. São personagens, nada mais. Tanto que os flashs não param de piscar; os celulares acesos estragam o escurinho e as fotos circulam nas redes sociais. Tudo às claras e muito lindo.
Um filme sem roteirista, sem diretor, sem continuísta, sem figurinista, sem cenógrafo, sem fotógrafo. Cada um apanhou da memória coletiva e das fantasias pessoais tudo o que se fazia necessário para o desempenho do seu papel.
Que belo filme! Pena que acabou, e a vida retornou ao seu curso e ao seu ritmo avassaladores, com roteirista, com diretor, com continuísta, com figurinista, com cenógrafo, sem fotógrafo, sem coreógrafo. E o jogo é duro, nada lúdico, sem espaço para ingenuidades. Sessenta ou setenta anos depois (ou seriam três ou quatro hora depois?), a cidade mudou e, com ela, todos e cada um.
E eu estou aqui, vendo tudo acontecer, paralisado e amordaçado pelo desejo de que as perspectivas e expectativas se tornem outras, com aventureiro sabor de Moulin Rouge, mas sem a carga negativa de uma fuga ao enfrentamento dos próprios fantasmas, que assombram sem parar, num tempo (este tempo de sempre) em que já não se pode voltar ao passado e, por outro lado, as portas para o futuro ainda não estão abertas. Tempo de emparedamento no presente. Nostalgia contra tédio.
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